Happy birthday, Mr. Fry

A língua em que escrevo faz necessárias apresentações ao homem com o cérebro do tamanho do condado de Kent, exatos 3.763 Km2 segundo a Wikipedia. Uma comparação diminuta na opinião de quem convive com as imensidões continentais brasileiras. Tenho certeza, os bilhões de neurônios de Stephen Fry no emaranhado de suas dentrites alcaçam dimensões muito mais espetaculares. Obliquamente, ele diz "quase" isto aqui. Seus talentos são tão variados, seus conhecimentos tão extensos e sua criatividade tão inspiradora que só é possível falar do ator, escritor, diretor, produtor, apresentador e, ufa!, comediante inglês por superlativos. Talvez melhor a figura de um moderno homem renascentista.

Querido Mr. Fry, meus votos de feliz aniversário seguem plenos de gratidão por todos os peixes, pela emoção e pelo vasto o alimento oferecido à mente que já pude apreciar. Obrigado pelo imoral brilhantismo do relações públicas Charles Prentiss e pela impagável perspicácia do repórter investigativo David Lander. Obrigado por QI, sua fantástica trivia, suas piadas inusitadas e sua incontida celebração do saber. Obrigado pela Incomplete and Utter History of Classical Music, que tantos pedaços ainda tenho por ouvir. Principalmente, obrigado por tantas criações, estou certo de igual talento, ainda por conhecer. Fico feliz em imaginar quantos outros virão nos próximos anos.

Aproveito a ocasião não apenas para louvar suas glórias, Mr. Fry. Para tanto escreveria em inglês, talvez mais apropriado. Além de facilitar sua improvável leitura deste humilde texto, haveriam muitos outros com quem compartilhar a admiração nutrida.

Escrevo em português e imerso em minha brasilidade porque a comemoração de suas 50as festas, Mr. Fry, fazem minha roda girar no campo das comparações.

Claro, falo do meu grande pequeno Brasil e da sua pequena grande Grã-Bretanha. Meu olhar parcial e estreito inspira-se nas duas noites de programação exibidas pela BBC4 em homenagem a seu aniversário: o Stephen Fry Weekend.

Imaginem um horário nobre do final de semana, dez horas depois da novela. Imaginem a principal rede de televisão brasileira, a Globo. Imaginem o aniversário de 50 anos de um grande personagem de nossas artes. Finalmente, imaginem os programas de televisão:

  • o primeiro, uma colagem de entrevistas de amigos, personalidades de fama própria, exaltando as qualidades do homenageado e comentando passagens da sua obra e carreira que são reprisados em segmentos dedicados cada um a um dos múltiplos talentos do artista durante uma hora.
  • o segundo coloca o homenageado à frente de um entrevistador arguto e experiente, crítico de artes de grande jornal, também dramaturgo, muito cordato, nada condescendente e bem informado que durante outra hora passa em revista a vida privada, questiona intenções e sentimentos, para aflorar o que move o artista.
  • o terceiro tem o próprio artista por meia hora a discorrer sobre seus prazeres secretos em deliciosa prosa com o apoio de imagens incidentais de toda sorte, seus prazeres culpados vão de ouvir Abba (doi-me dizer, pois eu odeio e minha mulher adora) a bater em seu parceiro Hugh Laurie, o que parece ser mesmo bacana (sorry, Dr. House).

Como minha comparação não é de tal tipo, não vou propor um nome. Não quero discutir qual artista merecia tamanha homenagem. Eles existem também aqui nestes trópicos em diferentes glórias.

É certo que não imagino programas como estes às 10 horas de sexta na Globo. Porém, a BBC4 está mais para uma GNT, o que torna o cenário não tão improvável.

O que é improvável são a escala e as nuances. Não apenas do homem, como também da homenagem.

Imaginem nosso Mr. Fry tupiniquim apresentado como um tesouro nacional, não apenas por seu vigor e talento artístico mas especialmente por sua amplitude intelectual.

Imaginem outro amigo do artista no lugar de sua majestade Príncipe Charles (sei que é difícil já que os nossos royals vem normalmente de outros campos, mais modestos, serve uma figura pública de relevo, não unânime, mas altiva, Ulisses Guimarães?) a declarar que o país tem grande sorte em ter o artista entre os seus.

Acima disto, imaginem que durante todos os programas, em diversas formas, o que se assiste é um grande tributo à língua, saborosos extratos de arco tão vasto, seguem do amor à poesia em Ode less Travelled ao saboroso uso dos mais absurdos palavrões em A Bit of Fry and Laurie, inclui o próprio artista explicando sua paixão pela língua e inumeros exemplos de textos primorosos de sua autoria.

Imaginem o artista, popularmente celebrado em suas terras, portanto, sua vida privada alvo da inexaurível curiosidade da massa, capaz de manter o devido decoro, virtude tão carente em nossos trópicos, e ainda inverter a equação superficial da mídia, dirigindo um lindo documentário centrado em si mesmo, portador de paranóia maníaco-depressiva, uma doença mental pouco conhecida ou disgnósticada, que quase o levou ao suícidio por duas vezes.

Por último, imaginem ser possível perceber tamanha sinceridade no artista quando por seus atos demonstra o que seus amigos declaram:

  • é um homem extremamente culto;
  • criativamente brilhante;
  • aproveitou todas as oportunidades que a vida lhe deu para construir este imenso patrimônio, muito maior que o condado de Kent; e
  • move-lhe a uma extraordinária capacidade compartilhar seu tesouro com os outros.

Obrigado, Mr. Fry.

Feliz aniversário.

Editoria:

Comments

Como eu acho que a comédia para os britânicos é equivalente ao Samba por essas terras, talvez seja possível encontrar uma unanimidade nacional nesse ramo... Cartola, Dona Ivone Lara, sei lá... não conheço o suficiente para indicar.

Mas de qq modo nosso "tesouro nacional", provavelmente é o Pelé ou o Senna.

A diferença é que o Fry é um cara admirado pela inteligência, capacidade de expressão acima de qualquer normalidade e o uso do conhecimento enciclopédico para colorir a banalidade do dia-a-dia.

Não conheço nenhuma celebridade brasileira capaz de defender o Wagner... acho que poucas celebridades tupiniquins sequer ouviram algo além da trilha de "Apocalipse Now!", portanto nem devem imaginar pq alguém precisaria se defender por gostar do compositor alemão... (eu sou do time que não consegue desvincular a música da ideologia. Wagner me incomoda)

Lá a grande maioria das celebridades também conquista espaço usando a bunda e peitos aumentados artificialmente... mas há tb gente famosa que provém um modelos de sucesso dentro da sociedade que não estão ligados a beleza física, a habilidade de controlar uma bola ou dirigir um carro.

A valorização desses caminhos para a ascenção social certamente não traz benefícios para a sociedade. Qual a porcentagem das mocinhas que querem ser modelo efetivamente consegue trabalhar no ramo?

Uma nação de mulheres anoréxicas frustradas e inseguras que querem ser vistas, mas não ouvidas é o sonho do Jesse Valadão. Não deveria ser incentivado por uma sociedade que nem consegue prover arroz, feijão, saúde e educação para a maioria dos cidadãos.

Quantos garotos que sonham em jogar no Maracanã, Morumbi, Mineirão acabam participando apenas do Peladão?

Precisamos encontrar sonhos mais produtivos gerar exemplos de sucesso intelectual... Mas aqui a indústria cultural prefere viver de subsídio do governo em vez de encontrar um jeito de ser popular. Mamar nas tetas do Estado é mais fácil...

Cogito ergo doleo

[]s China

Talvez Cartola, certamente Noel Rosa Quem sabe Fernanda, ou Paulo Autran Há também Chico Buarque, agora em prosa E até o André Abujamra tem seus fãs

Unanimidade pouco me importa Prefiro a arte obscura que a mal-sã

Mas Pelé jamais, é outra a bola O belo do pé não é do outro a sola Não há lá glórias aqui distantes Nem quero eu meros implantes

Os sonhos são mesmos preciosos Instantes que vivemos com ardor

Já os mitos são outra dobra Pois tal qual a mítica cobra Alimentam-se da própria fama Anulando em si o que se reclama

A produtividade, então, grande vilã Rouba vontade, o tempo proclama

Gosto de Wagner, e Villa-lobos de manhã O bardo a qualquer hora, entre Camões com afã A cultura é trans-oceânica e transborda Mr. Fry em verde amarelo foi visto em Jaçanã

Sobra a ideologia que sossobra a procurar Tannhauser em Aldebarã

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